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Roteiro Queirosiano

José Maria Eça de Queirós (1845-1900) foi um dos nomes maiores da literatura portuguesa do século XIX. Integrou, ainda jovem, a chamada “Geração de 70”, movimento de universitários que negando a corrente romântica da literatura, inaugurou o movimento naturalista, em Portugal, procurando retratar a realidade social e política do país.

Paralelamente a uma carreira diplomática, Eça desenvolveu uma extensa obra literária composta por crónicas, novelas, contos e romances que têm em Os Maias o seu livro mais reconhecido e aclamado. Subintitulado Episódios da Vida Romântica, a sua ação teria, inevitavelmente, de passar por Sintra, vila romântica por excelência.
1
QUINTA DO RAMALHÃO
Morada: R. Elias Gargia 23
GPS: 38º47’ 12.3’’N 9º22’21.1’’W

Carlos da Maia, personagem principal da obra desloca-se a Sintra, estância de repouso e recreio da sociedade da época, acompanhado do seu amigo Cruges, para tentar conhecer a sua amada Maria Eduarda, que aí estaria acompanhada pelo suposto marido - Castro Gomes. A entrada em Sintra faz-se com uma passagem vagarosa pelo arco que une, sobre a estrada, a quinta do Ramalhão ao palácio neoclássico onde viveu a rainha D. Carlota Joaquina, após as Guerras Liberais.

Hoje este imóvel acolhe o colégio de São José das Irmãs Dominicanas.

“Chegavam às primeiras casas de Sintra, havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.

E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens, e com o difuso e vago murmúrio de águas correntes.”

 

2
ESTRADA DE SÃO PEDRO
GPS: 38º47’ 24.6’’N 9º22’47.0’’W e 38º47’ 29.8’’N 9º22’51.8’’W

Para chegar ao centro da Vila de Sintra (hoje centro histórico) Carlos da Maia e o seu amigo percorreram a Estrada de São Pedro, passando pelo atual largo D. Fernando II, onde entretanto ganhou fama a feira de São Pedro e, logo de seguida, pela Igreja de S. Pedro de Penaferrim, já existente em 1403, mas bastante ampliada devido à campanha de obras de 1565, iniciativa de D. Álvaro de Castro. Esta capela alberga, ainda hoje a escultura gótica proveniente da antiga capela de São Pedro de Canaferrim (situada junto ao Castelo dos Mouros).

“Era uma ideia que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas de S. Pedro, e o break começara a rolar naquelas estradas onde a cada momento ele a poderia encontrar.”
3
PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA
Morada: Largo Rainha D. Amélia
GPS: 38º47’51.1’’N  9º23’26.2’’W

À medida que desciam para a vila, Cruges deixou-se impressionar pelo palácio, o exemplar mais significativo da arquitetura aulica medievel portuguesa que chegou aos nossos dias. Tendo recebido campanhas de obras de adpatação e ampliação nos reinados de D. Dinis, D. João I e D. Manuel I o seu aspecto mantem-se praticamente inalterado desde o século XVI.

“E foi o que mais lhe agradou - este maciço e silencioso palácio, sem florões e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casario da vila, com as suas belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o vale aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminés colossais, disformes, resumindo tudo como se esta residência fosse toda ela uma cozinha talhada às proporções da gula de Rei que cada dia come todo um Reino.”
4
HOTEL NUNES
Morada: Praça da República
GPS: 38º47’ 48.1’’N  9º22’26.9’’W

Chegádos ao coração de Sintra, já com vontade de comer as famosas queijadas, as nossas personagens vão em busca do Hotel Nunes (hoje substituído pelo Hotel Tivoli) onde Eça nos fala de certas “pândegas com espanholas” e de como era um local para se fazerem boas refeições.

“Nós não vamos para a Lawrence, disse Carlos saindo bruscamente do seu silêncio, e espertando os cavalos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito melhor! (…)- Vamos para o Nunes, que se come melhor!”

Olhando em redor Carlos da Maia teria certamente visto a prisão (hoje edifício dos correios) onde os detidos mendigavam esmolas através das grandes das janelas, o alpendre do mercado usado pelos saloios para a venda dos seus produtos (atualmente substituido por esplanadas e lojas turísticas), o palacete do Conde de Ficalho (transformado em posto de turismo) e a Igreja de São Martinho. Do lado oposto da praça o velho hospital e igreja da misericórdia.
5
HOTEL VICTOR
Morada: Largo Ferreira de Castro
GPS: 38º47’48.1’’N  9º23’26.9’’W

O antigo Hotel Victor é referênciado em Os Maias a propósito de um amor frustrado de João da Ega. Este Hotel tinha, na época, a dupla função de local de alojamento e casino particular. Era propriedade de Victor Carlos Sassetti, dono do Hotel Bragança, em Lisboa e da Quinta da Amizade, também em Sintra. Dali partiam as famosas burricadas que levavam os interessados até Seteais.

O hotel surge igualmente referênciado na obra Queda de um Anjo de Camilo Castelo Branco.

“E tu (…) Tens estado em Sintra hem? Que se faz lá?... O Ega? (…) – Lá está no Vitor muito engraçado, comprou um burro… Lá está o Dâmaso também… Mas esse pouco se vê , não larga os Cohen (…).”
6
LAWRENCE’S HOTEL
Morada: Rua Consiglieri Pedroso 38
GPS: 38º47’45.5’’N  9º22’34.5’’W
 
Nascido em 1764, com o nome de Estalagem dos Cavaleiros este edifício foi adquirido, já no século XIX, por Lewis Lawrence, que ali fez nascer o mais antigo hotel da Península Ibérica.
Estabelecimento de charme, seria o local onde estaria hospedada Maria Eduarda.
Hoje, apesar de aumentado, mantêm na essência a mesma traça.

"Defronte do Hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges  (…) Carlos não respondeu, os olhos não despegavam daquela fachada banal, onde só uma janela estava aberta com um par de botinas de duraque secando ao ar.
Diante dele, para lá de um gradeamento ainda identificável, existia o pátio dos burros, local onde os animais que faziam o transporte até à Pena aguardavam os hóspedes.
Vamos indo primeiro à Lawrence. E depois, se quisermos ir à Pena, arranjam-se lá os burros…(…) Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na boca, não tendo podido apoderar-se dos ingleses, preguiçavam ao sol".
7
CASCATA DOS PISÕES
Morada: Avenida Almeida Garrett
GPS: 38º47’41.9’’N  9º23’39.1’’W
 
Passada a Quinta dos Pisões, cuja estrutura inicial remonta ao século XVI e onde se destaca a torre com cúpula hemisférica de aspeto renascentista, encontramos, do lado esquerdo, uma pequena cascata artificial aproveitando romanticamente uma das muitas nascentes da serra de Sintra. O som da água corrente e o verde que envolve as pedras fazem deste local um ponto de paragem obrigatória.

“Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas…Sintra é isto, um pouco de água, um bocado de musgo….isto é o paraíso(…).”
8
PALÁCIO DE SETEAIS
Morada: Avenida Almeida Garrett
GPS: 38º47’48.3’’N  9º23’58.1’’W


Palácio neoclássico, mandado edificar no final do século XVIII pelo 5º Marquês de Marialva, foi desprezado pelos românticos e Eça descreve-o como estando abandonado e mal tratado. Composto por dois corpos unidos pelo arco triunfal levantado em 1802, em homenagem aos principes regentes D. João VI e D.Carlota Joaquina, dele se avista um dos mais belos quadros de Sintra com a serra verdejante coroada pelo Palácio da Pena.

“No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro deserto e verdejante todo salpicado de botões amarelos; ao fundo o renque cerrado de antigas árvores com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e, emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o céu azul claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro…”