Image
MU.SA- Museu das Artes de Sintra I Piso 1
16 outubro a 27 dezembro 2020
CAMILIANA DE SINTRA:
BEM CULTURAL DE INTERESSE DE PÚBLICO
“É classificada como bem cultural de interesse público a Coleção Camiliana de Sintra, que integra a Biblioteca Municipal de Sintra.”
(in Portaria n.º 505/20. «D.R. II Série».152 (20-08-06) 67)

A presente exposição que invoca a Classificação da Camiliana de Sintra, como Bem Cultural de Interesse Público, pretende dar a conhecer documentos únicos que compõem este valiosíssimo espólio de e sobre o escritor Camilo Castelo Branco.
A Classificação deste património cultural único que integra a Biblioteca Municipal de Sintra, teve como objetivo base a preservação, salvaguarda e divulgação deste acervo Camiliano de inegável valor literário, cultural, histórico, linguístico, documental, artístico e social.
Constituído por um fundo arquivístico, bibliográfico e iconográfico, considerado o melhor do mundo, a coleção da Camiliana de Sintra representa, a vários títulos, a obra de Camilo Castelo Branco, um dos maiores génios da literatura portuguesa. Formada a partir da coleção particular de Rodrigo Simões do Carmo Costa (1873-1947), sintrense que colecionou exaustivamente obras da autoria e sobre Camilo Castelo Branco, e que em 1939 doou a sua coleção ao Município de Sintra, tendo a edilidade enriquecido substancialmente o espólio a partir dessa data.
Esta Camiliana constitui um património de interesse cultural com valores de memória, autenticidade, criatividade e raridade, que importa reconhecer e valorizar. Esses valores manifestam-se, desde logo, na existência de autógrafos literários do autor, que são raros, bem como de praticamente todas as edições de todas as suas obras, muitas delas também raras; e, ainda, na extensa documentação da sua vida e época, através de muita correspondência do escritor e de uma vasta coleção de periódicos do seu tempo, onde, em muitos dos quais, deixou a sua intervenção. Incluindo uma extensa bibliografia passiva, a Camiliana de Sintra constitui igualmente um testemunho da relevância da obra de Camilo Castelo Branco no panorama cultural e científico, desde o século XIX até à atualidade.
Da Camiliana faz ainda parte uma importante Coleção de Arte, através de um espólio iconográfico que revela o gosto e admiração de diversos artistas, que não ficaram indiferentes à figura única de Camilo Castelo Branco.
A classificação da Coleção Camiliana de Sintra ao abrigo da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, (que Estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural), reflete os critérios relativos ao caráter matricial do bem, ao génio do respetivo criador, à proximidade da matriz ou versão originais, aos processos utilizados na sua criação ou produção, ao valor estético e material intrínseco do bem e à sua importância na perspetiva da investigação histórica e científica e o que nela se reflete do ponto de vista de memória coletiva.
Todas as citações e apontamentos que pontuam esta exposição tiveram como referência os depoimentos e textos que compõem o Dossier de Candidatura da Camiliana de Sintra como bem Cultural de Interesse Público, apresentado pela Câmara Municipal de Sintra, junto da Biblioteca Nacional de Portugal.
É, pois, este espólio e universo Camiliano único, também parte de Sintra – igualmente única - que queremos partilhar consigo.

Biografia

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

Nasceu em Lisboa, na Rua da Rosa, em 16 de março de 1825. Registado como filho de pais incógnitos e baptizado na Igreja dos Mártires, era filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco (1778-1835), oriundo de Vila Real, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo (1799-1827), cuja naturalidade mais consensual entre os biógrafos do futuro escritor será Sesimbra. Dois anos após a morte da mãe, em 1827, Camilo e a irmã mais velha, Carolina (1821-1898), serão perfilhados. Depois de uma breve estada em Vila Real, pelos afazeres profissionais paternos, Camilo regressará a Lisboa, onde permanecerá até à morte do pai, em 1835. Em conselho familiar, deliberou-se que os dois órfãos seguiriam para a capital de Trás-os-Montes, ficando a cargo de uma tia, Rita Emília da Veiga Castelo Branco (1776-1874).
Em 1839, os irmãos irão viver para Vilarinho da Samardã, onde se casará Carolina, com Francisco José de Azevedo (1812-1867) – pais de António de Azevedo Castelo Branco (1842-1916), futuro poeta, amigo chegado de Antero de Quental (1842-1891) e, no início do século seguinte, presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Camilo tem lições com o irmão do cunhado, P.e António José de Azevedo (1800-1874 ou 76), que será um mestre fundamental. Se os dez primeiros anos de vida, passados em Lisboa, foram decisivos para a formação do seu caráter, a aprendizagem formal e informal da adolescência processou-se na província do pai.
Aos dezasseis anos, a viver em Friúme, Ribeira de Pena, casa-se com Joaquina Pereira de França (1826-1847), de quem terá uma filha, Rosa (1843-1848). Nesse ano em que foi pai pela primeira vez, Camilo fez exames no Liceu Nacional e, em seguida, exame de admissão à Escola Médica, que frequentou durante um ano letivo, em simultâneo com a Academia Politécnica do Porto, onde estudou Química e Botânica. A vida boémia na cidade impediu-o de levar os estudos a bom porto: foi um manancial de novas possibilidades que se lhe abriu, estimulando uma idiossincrasia já de si propensa ao excesso.
Assinale-se, contudo, a sua estreia em livro, com Os Pundonores Desagravados (1845), edição do autor, publicada sob anonimato. Ainda nesse ano passará por Coimbra, onde terá possivelmente frequentado o curso de Direito, não mais que um ano letivo, porém.
Regressado ao Norte, ter-se-á alistado na guerrilha miguelista do general Mac-Donnell (? -1847), episódio por comprovar. Enamora-se de Patrícia Emília de Barros (1826-1885), raptando-a, o que lhe valerá uns dias de prisão na Cadeia da Relação do Porto. Dessa ligação nascerá a sua segunda filha, Bernardina Amélia (1848-1931). Pouco depois morrerá Patrícia Emília, seguindo--se Rosa. Da estada em Vila Real, assinala-se a edição da primeira peça de teatro, Agostinho de Ceuta (1846).
Malquistado com os poderosos da cidade, Camilo passa ao Porto, com incursões a Coimbra e a Lisboa. Foi um período de grande boémia, encontros amorosos (a freira Isabel Cândida Vaz Mourão, Maria Felicidade do Couto Browne e sua governanta Eufrásia Carlota de Sá) e atividade jornalística, devendo assinalar-se, a título de curiosidade, a edição do folheto de cordel, Maria! Não me Mates que Sou Tua Mãe! (1848), a polémica O Clero e o Sr. Alexandre Herculano (1850), ambos de novo sob anonimato, e do seu primeiro romance, Anátema (1851). Em provável crise, ingressará no Seminário Episcopal do Porto, que abandona a breve trecho. Regressando ao modo de vida anterior, acabará por conhecer, num evento social Ana Augusta Plácido (1831-1895), jovem esposa do brasileiro Manuel Pinheiro Alves (1807-1863). Publicara, entretanto, Os Mistérios de Lisboa (1853-54), A Filha do Arcediago (1854), Onde Está a Felicidade (1856), Que Fazem Mulheres? Carlota Ângela (1858), entre outros. Herculano (1810-1877), que o admira, propõe o seu nome como sócio correspondente da Academia das Ciências (1858), apoiando-o igualmente na pretensão gorada de um lugar na Biblioteca Municipal do Porto, insucesso que foi consequência das inimizades granjeadas pelo escândalo decorrente da sua relação ilícita com Ana Plácido, já mãe de um rapaz, Manuel (1858-1877), tido por filho de Pinheiro Alves, mas sendo-o de Camilo.
A prisão de Ana Plácido em março de 1860, por adultério, seguindo-se a de Camilo, em outubro, culminará com a absolvição e libertação do casal, um ano mais tarde. É um período extremamente profícuo no que respeita à criação literária, com a publicação de treze títulos, entre os quais se contam Doze Casamentos FelizesO Romance dum Homem RicoO Morgado de Fafe em Lisboa (1861), Amor de Perdição (comummente considerado a sua obra-prima, escrito em quinze dias), Memórias do Cárcere Coração, Cabeça e Estômago (1862).
A vida de Camilo Castelo Branco será, a partir desta data, marcada pela dedicação exclusiva e profissional à escrita e terminará quando a escrita deixou de ser possível, pela cegueira que o acometeu, suicidando-se em 1 de junho de 1890. É verdade que na sua biografia se deve registar o nascimento dos filhos Jorge (1863-1900) e Nuno (1864-1896), este já em S. Miguel de Seide, propriedade de Manuel Pinheiro Alves, que coube em herança a Manuel Plácido. O casamento com Ana Plácido em 1888. O resto é literatura forjada nesse Minho tão importante para a sua sedimentação como escritor maior. Escrita que será pautada por graves contrariedades: morte de Manuel, loucura e morte de Jorge, desbragamento de Nuno, morte da filha deste, Maria Camila (1883-1884), que fere profundamente o escritor, as constrangedoras diligências pelo título de visconde (Visconde de Correia Botelho), por razões de sobrevivência – cuja precariedade o obrigara a leiloar em Lisboa a sua biblioteca (1883-1884) –, a doença, finalmente, com o trágico desenlace.