Matter of Choice
Luísa Ramires

27 de fevereiro a 12 de abril de 2026 | Sala Polivalente – MU.SA - Museu das Artes de Sintra
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Há no corpo de trabalho de Luísa Ramires (Coimbra, 1994) um rigor e uma obstinação semelhantes aos de um escultor que trabalha a pedra ou a madeira. Num território onde a manualidade convive com uma dimensão digital incisiva e detalhista, as suas obras constituem um ponto de referência para uma leitura atenta do tempo que vivemos. Não se trata apenas de pulsão estética ou de uma técnica aprimorada. O seu trabalho habita um espaço atemporal, explorando as fricções entre um mundo tecnológico, veloz e artificial e outro, por contraste, marcado por processos lentos e artesanais, sustentados pela resistência das matérias-primas e pela memória coletiva que estas carregam.

Em tela, no desenho ou, sobretudo, através do têxtil, o processo de trabalho da artista, distinguida com o Prémio de Pintura e Escultura de Sintra D. Fernando II, caracteriza-se pela insistência metódica, pelo fazer cuidadoso e minucioso. O seu trabalho, que se move entre a pintura e as técnicas de serigrafia e monotipia, é planeado com rigor, envolvendo medições sucessivas durante a impressão, bem como a preparação do tecido por lavagem, mordentação e a criação de tintas a partir de pigmentos sintéticos testados quanto à sua durabilidade.

Em Matter of Choice, Luísa Ramires adensa o seu lugar de experimentação. As obras aqui reunidas funcionam como parte de uma narrativa aberta, sustentada pela interrogação que se impõe num momento de escolha. Nas alternativas oferecidas ao visitante evidencia-se o conceito de ambivalência, sem que noções de correto ou errado se imponham. As obras polinizam-se umas às outras, comunicando para além das divisões impostas. As ideias de lugar e não-lugar, inspiradas nas leituras de Marc Augé, não são alheias à prática da artista. Estamos, afinal, num espaço marcado pela hibridez.

No detalhe das peças, contempladas à distância quase como paisagens em movimento, revelam-se imagens trabalhadas digitalmente: uma senha de talho, um conjunto de cadeiras para venda, um sinal de “No Standing”, mas também detalhes de cordas, canhões ou materiais de trabalho que remetem para o lugar do atelier de criação. Estas imagens, feitas ou recolhidas pela artista durante as suas deambulações, representam um percurso, por vezes errante e nonsense, mas igualmente afetivo e memorialístico.

O tecido, nesta constelação de trabalhos e na continuidade de produções anteriores, não é apenas um suporte passivo. Constitui um campo de estudo objetivo, ligado às composições que, ao longo dos anos, se consolidaram na iconografia do têxtil tradicional e que aqui são transportadas para uma entidade já de si contemporânea. Podemos, por isso, inserir a sua prática numa linha de continuidade com as vanguardas que exploraram o têxtil e as técnicas de pigmentação, desde o movimento Arts & Crafts, iniciado por William Morris, ou a Escola de Bauhaus.

Tal como acontece na cerâmica, caminha-se aqui por uma linha ténue, mas necessária, entre arte e ofício, visível hoje tanto na produção artística como na moda, no design ou no campo científico. Alguma da sua experimentação deve-se a mestres como Anni Albers, que transformou o tear num veículo de inovação, mas também a nomes como Sonia Delaunay, Olga de Amaral e Sheila Hicks. A sua arte, porém, não se centra na utilização de fibras, mas no que estas podem transportar, bem como num pensamento inerente sobre a utilização do espaço.

Regressando a Matter of Choice, a deambulação do visitante ativa as narrativas inscritas nas obras, transformando o espaço expositivo num território em contínua negociação entre corpo, matéria e tempo. A artista interessa-se pela indefinição entre realidades e ambientes, assim como pelo vínculo geológico e primitivo dos lugares. Importa ainda notar o lado espiritual das obras, tanto ligado ao ritual e ao processo de trabalho de Luísa Ramires como à forma como estes mantos — pinturas — se apresentam ao olhar de quem os observa.

Somos, indubitavelmente, levados a questionar a forma como habitamos e partilhamos um território comum. A interrogação é fundamental, talvez mais do que nunca, numa época em que se definem novas fronteiras físicas e surgem cismas que nos tendem a dividir. Ao refletirmos sobre a natureza da escolha e sobre a forma como habitamos zonas de incerteza, talvez encontremos motivos para nos unirmos em torno de tudo aquilo que nos liga.

Texto curatorial de Ricardo Ramos Gonçalves

Sobre Luísa Ramires



Luísa Ramires vive e trabalha em Lisboa, Portugal. 

Expôs no Museu Nacional Machado de Castro, Museu do Tesouro da Misericórdia, Convento do Carmo, Museu Nacional de Arte Contemporânea. 

Foi finalista em vários concursos e recebeu o Prémio de Pintura D. Fernando II (2024). 

Participa regularmente em residências artísticas, entre as quais a "Biennale du Lin de Portneuf” no Quebec, Canadá (2023), “Risco” na Associação Alfaia, Loulé, Algarve (2024), e duas em Nova Iorque: Kunstraum LLC e Mothership NYC (2024). 

Está presente em diversas publicações como a PEA - Portuguese Emerging Artists, Emerge (2024). 

É representada pela Galeria Carrasco, Madrid, Espanha.