Novos olhares sobre a Coleção J. Eduardo Lima Cascada
19 de março a 14 de junho de 2026 | Piso 1 – MU.SA - Museu das Artes de Sintra

A Coleção J. Eduardo Lima Cascada configura-se como um relevante núcleo de arte contemporânea portuguesa integrado na Coleção Municipal de Arte da Câmara Municipal de Sintra. Constituída por 279 obras, resultante de três doações efetuadas pelo colecionador nos últimos anos, esta coleção corporiza não apenas um conjunto patrimonial de assinalável valor artístico, mas também a materialização de uma visão singular sobre o fenómeno criativo. Como sucede em toda a prática colecionista, a sua constituição assenta numa matriz subjetiva, refletindo opções estéticas, afinidades intelectuais e um posicionamento crítico perante a produção artística contemporânea. A prática do colecionismo, enquanto gesto cultural, configura sempre uma tomada de posição: selecionar é interpretar, reunir é construir uma narrativa. Neste sentido, a coleção traduz uma visão singular sobre o fenómeno artístico, refletindo afinidades eletivas, critérios estéticos e um entendimento específico da contemporaneidade.
O conjunto integra obras de artistas incontornáveis da arte portuguesa dos séculos XX e XXI, entre os quais se destacam artistas como Cruzeiro Seixas, Paula Rego, Júlio Pomar, Lima de Freitas, Nuno San-Payo, Artur Bual ou Bartolomeu Cid dos Santos, cujas práticas evidenciam a pluralidade de linguagens, correntes estéticas e problemáticas que marcaram a arte contemporânea portuguesa. A coleção revela-se, assim, um campo de tensões e convergências, onde coexistem abordagens figurativas e abstratas, pulsões narrativas e investigações formais, gestualidade expressiva e depuração conceptual.
A exposição Ponto de Inflexão propõe uma recontextualização crítica deste acervo, afastando-se de uma leitura meramente cronológica ou autoral para privilegiar uma abordagem temática e conceptual. O conceito matemático de “ponto de inflexão”, entendido como o momento em que uma curva altera o seu sentido, é aqui mobilizado enquanto metáfora operativa: a exposição institui-se como dispositivo de reinterpretação, no qual o discurso curatorial promove novas articulações entre as obras, questionando hierarquias e desestabilizando leituras sedimentadas.
Estruturada em núcleos de progressão existencial — do Caos antes da Ordem ao Mundo Fantástico, do diálogo entre o Pueril e o Consciente à Maturidade, culminando na tensão entre Mortalidade e Eternidade — a mostra configura um percurso que ultrapassa a mera organização temática, assumindo-se como reflexão sobre as etapas simbólicas da experiência humana e do próprio processo criativo. A arte é, neste enquadramento, entendida como campo de problematização do tempo, da memória e da identidade, bem como espaço de negociação entre impulso e consciência, matéria e conceito, finitude e permanência.
Neste contexto, Ponto de Inflexão afirma-se como exercício crítico sobre o ato de colecionar, sobre os modos de construir sentido a partir de um acervo e sobre a responsabilidade institucional na sua mediação pública. Mais do que apresentar obras, a exposição propõe uma hermenêutica da coleção, convidando o visitante a reconhecer, em cada peça, não apenas a marca do artista e do colecionador, mas também a possibilidade de um novo olhar — aquele que, ao confrontar-se com a obra, produz o seu próprio ponto de inflexão interpretativo.Inflection point
New perspectives on the J. Eduardo Lima Cascada Collection
The J. Eduardo Lima Cascada Collection stands out as a significant nucleus of contemporary art within the Sintra Council’s Art Collection. Comprising 279 works, which are the result of three donations made by the collector in recent years, this collection embodies not only a heritage of remarkable artistic value, but also the materialisation of a unique vision of the creative phenomenon. As with all collecting practices, its constitution is based on a subjective matrix, reflecting aesthetic choices, intellectual affinities and a critical stance towards contemporary artistic production. The act of collecting, as a cultural gesture, always involves taking a stand: selecting is interpreting, gathering is constructing a narrative. In this sense, the collection conveys a unique vision of the artistic phenomenon, reflecting elective affinities, aesthetic criteria and a specific understanding of contemporaneity.
The collection includes works by key artists in 20th and 21st century Portuguese art, including Cruzeiro Seixas, Paula Rego, Júlio Pomar, Lima de Freitas, Nuno San-Payo, Artur Bual and Bartolomeu Cid dos Santos, whose practices highlight the plurality of languages, aesthetic trends and issues that have marked contemporary Portuguese art. The collection thus reveals itself to be a field of tensions and convergences, where figurative and abstract approaches, narrative impulses and formal investigations, expressive gestures and conceptual refinement coexist.
The exhibition Ponto de Inflexão (‘Inflection point’) proposes a critical recontextualization of this collection, moving away from a purely chronological or authorial reading towards a thematic and conceptual approach. The mathematical concept of ‘turning point’ – understood as the moment when a curve changes direction – is used here as an operative metaphor: the exhibition establishes itself as a device for reinterpretation, in which the curatorial narrative promotes new connections between the works, questioning hierarchies and disrupting established interpretations.
Structured around nuclei of existential progression — from Chaos before Order to the Fantastic World, from the dialogue Between Puerile and Consciousness to Maturity, culminating in the tension between Mortality and Eternity — the exhibition charts a path that transcends mere thematic organisation, presenting itself as a reflection on the symbolic stages of human experience and the creative process itself. In this context, art is understood as a field for questioning time, memory and identity, as well as a space for negotiation between impulse and consciousness, matter and concept, finitude and permanence.
Inflection point asserts itself as a critical exercise on the act of collecting, on ways of constructing meaning from a collection, and on institutional responsibility in its public mediation. More than just presenting works, the exhibition proposes a hermeneutics of the collection, inviting visitors to recognise, in each piece, not only the mark of the artist and the collector, but also the possibility of a new perspective — one that, when confronted with the work, produces its own interpretative turning point.




